O que não se fala sobre projetos: crescimento dói
No discurso comum, projetos de crescimento costumam ser apresentados como algo positivo, rápido e desejável. Crescer aparece como sinônimo de sucesso, evolução e melhoria contínua.
No entanto, há um aspecto menos visível e raramente discutido, que acompanha qualquer projeto que realmente transforme uma organização: o desconforto.
Crescimento dói.
Não porque algo esteja necessariamente errado, mas porque mudar estruturas, processos e pessoas nunca é neutro.
Projetos que geram crescimento real mexem com o que já estava estabelecido. Eles deslocam zonas de conforto, desafiam rotinas conhecidas e colocam decisões antigas sob revisão.
E isso, inevitavelmente, gera tensão.
Crescimento não é apenas expansão, é ruptura
Um erro comum é tratar crescimento como simples expansão do que já existe: mais clientes, mais ferramentas, mais pessoas, mais entregas.
Na prática, projetos que realmente crescem não apenas adicionam camadas. Eles rompem padrões anteriores.
Romper padrões significa admitir que:
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algo que funcionava já não é suficiente;
-
estruturas antigas não sustentam novas demandas;
-
decisões passadas precisam ser revistas.
Essa constatação, por si só, já é desconfortável. Ela toca em identidade profissional, em escolhas anteriores e em narrativas que ajudaram a organização a chegar até ali.
Por isso, crescimento nunca é apenas técnico.
Ele é profundamente humano.
Decisões difíceis fazem parte do processo
Projetos de crescimento exigem decisões que não são simples nem agradáveis.
Decidir crescer envolve:
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priorizar algumas iniciativas e abandonar outras;
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redistribuir responsabilidades;
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redefinir papéis;
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rever lideranças;
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alterar fluxos de trabalho;
-
investir tempo e recursos antes de ver retorno.
Essas decisões raramente agradam a todos ao mesmo tempo. Muitas delas geram insegurança, resistência e questionamentos legítimos.
Há decisões que impactam diretamente a rotina das pessoas.
Outras afetam status, autonomia e reconhecimento.
Algumas exigem que profissionais aprendam novamente o que acreditavam dominar.
Nada disso é confortável.
E ainda assim, faz parte.
O período mais difícil: quando o antigo já não serve e o novo ainda não sustenta
Todo projeto de crescimento passa por um intervalo delicado: o momento em que o modelo antigo já foi abandonado, mas o novo ainda não está estabilizado.
Esse é o “meio” do projeto e quase nunca se fala sobre ele.
Nesse período:
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processos ainda estão sendo ajustados;
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ferramentas novas não foram totalmente absorvidas;
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pessoas estão aprendendo novas formas de trabalhar;
-
indicadores podem oscilar;
-
a sensação de perda de controle é comum.
Externamente, pode parecer confusão.
Internamente, muitas vezes é exatamente isso.
Mas esse caos temporário não significa fracasso.
Ele é, na maioria dos casos, sinal de transição.
Projetos que atravessam esse período sem reconhecer sua complexidade tendem a gerar frustração, desgaste emocional e decisões precipitadas.
O impacto humano que raramente entra no planejamento
Planilhas, cronogramas e roadmaps ajudam a organizar projetos.
Mas eles raramente capturam o impacto humano das mudanças.
Crescimento afeta pessoas antes de afetar números.
Afeta:
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a forma como profissionais se percebem no time;
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a segurança que sentem em relação ao próprio papel;
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a confiança nas lideranças;
-
a dinâmica de relações construídas ao longo do tempo.
Em projetos de crescimento, é comum que amizades profissionais sejam testadas. Papéis mudam. Pessoas que antes trabalhavam lado a lado passam a ocupar posições diferentes. Expectativas precisam ser renegociadas.
Nem todo mundo atravessa essas mudanças no mesmo ritmo e isso não é falha de caráter ou competência. É diferença de momento, de perfil e de contexto.
Crescer exige sustentar desconforto, não eliminá-lo
Uma das armadilhas mais comuns em projetos é tentar eliminar qualquer sinal de desconforto o mais rápido possível. Quando isso acontece, decisões estruturais acabam sendo adiadas ou suavizadas demais, comprometendo o impacto do crescimento.
Projetos maduros não são aqueles que evitam tensão.
São os que sabem sustentá-la com clareza.
Sustentar desconforto significa:
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comunicar com transparência;
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alinhar expectativas;
-
reconhecer dificuldades sem dramatizar;
-
manter critérios claros de decisão;
-
não confundir resistência com erro.
Crescimento exige tempo.
E tempo, quase sempre, vem acompanhado de desconforto.
Quando não há atrito, talvez não haja mudança real
É importante dizer isso com honestidade: nem todo projeto que se chama “crescimento” realmente transforma.
Quando tudo parece fácil demais, rápido demais e indolor demais, vale a reflexão: o que, de fato, mudou?
Projetos que não geram nenhum tipo de atrito costumam:
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manter as mesmas estruturas;
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repetir os mesmos padrões;
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apenas aumentar volume, não maturidade.
Atrito, quando bem administrado, não é sinal de falha.
É sinal de que algo está sendo deslocado.
A ausência total de tensão pode indicar que o projeto não foi profundo o suficiente para gerar transformação real.
Liderança sob pressão silenciosa
Outro ponto pouco discutido é o impacto do crescimento sobre lideranças.
Decidir crescer envolve sustentar escolhas impopulares, lidar com dúvidas internas e externas e manter coerência mesmo quando os resultados ainda não apareceram.
Lideranças raramente podem externalizar suas próprias inseguranças durante esses processos. Espera-se delas clareza, direção e firmeza mesmo quando o cenário ainda está em construção.
Essa pressão silenciosa faz parte do preço da decisão.
Projetos de crescimento testam lideranças não apenas pela visão estratégica, mas pela capacidade de sustentar o processo no tempo, sem ceder à ansiedade coletiva.
Crescimento não é linear e isso precisa ser aceito
Outro mito comum é a ideia de que crescimento acontece de forma linear e previsível.
Na prática, projetos avançam em ondas.
Há momentos de ganho rápido, seguidos de períodos de ajuste. Há fases em que os resultados parecem estagnar antes de se consolidarem.
Essa dinâmica é natural.
Ignorá-la cria expectativas irreais.
Projetos que amadurecem bem são aqueles que:
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aceitam oscilações como parte do processo;
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não confundem pausa com retrocesso;
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mantêm critérios mesmo sob pressão por velocidade.
Crescer rápido demais, sem estrutura, costuma custar caro depois.
Estrutura não elimina dor, ela a torna suportável
Nenhuma estrutura elimina completamente o desconforto do crescimento.
Mas uma boa estrutura torna esse desconforto compreensível, administrável e transitório.
Estrutura oferece:
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clareza sobre o porquê das decisões;
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previsibilidade mínima;
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critérios objetivos;
-
segurança psicológica para atravessar mudanças.
Sem estrutura, o desconforto vira caos.
Com estrutura, ele vira transição.
Crescer dói e isso não é um problema
Talvez o maior equívoco sobre projetos seja tratar a dor do crescimento como sinal de erro. Na maioria das vezes, ela é apenas sinal de movimento real.
Projetos que transformam:
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desafiam;
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desconfortam;
-
exigem adaptação;
-
testam relações;
-
pedem tempo.
Nada disso é falha.
É o preço de sair do lugar.
Crescer dói porque crescer muda.
E mudar, por definição, nunca é neutro.
Reconhecer isso não torna o processo mais fácil, mas o torna mais honesto, mais humano e, principalmente, mais sustentável.
Este é apenas o primeiro ponto de uma conversa maior.
Há muito mais que não se fala sobre projetos e quase tudo passa pelo que acontece entre as fases, não apenas no início ou no fim.
Porque, no fundo, projetos não falham por falta de intenção.
Eles falham quando o processo não sustenta a mudança que o crescimento exige.
Até Amanhã, temos uma série pela frente!
Com carinho ❤️
Marjory Lima
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